Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

A Beleza Artificial e Suas Consequências. O Mito da Mulher Jovem e Magra.

 

 

Sensopercepção é a leitura pelos nossos sentidos da realidade que nos cerca. O nosso cérebro busca interpretar os estímulos recebidos e torná-los compreensíveis à nossa inteligência. Porém, a sensação que os nossos sentidos podem obter a partir de estímulos visuais, auditivos ou olfatórios pode ser influenciada por múltiplos fatores, tais como: a experiência pessoal de cada um, os aspectos culturais da sociedade onde se vive, ou onde se foi criado e educado, referenciais de beleza que a pessoa utiliza em sua mente como uma espécie de “modelo mental" de referência de beleza, etc.

Sabemos ainda, que todas essas variáveis estão sujeitas a mudanças e até a condicionamentos, e é este o objetivo deste artigo, falar sobre o Condicionamento Mental atual imposto pela mídia no que diz respeito a referenciais de beleza artificialmente produzidos.

Além dos já bem conhecidos recursos do photoshop, algumas das “técnicas” utilizadas pela indústria da beleza não passam de meros truques psicológicos que têm por finalidade “fazer a cabeça” dos consumidores. São muito comuns em propagandas veiculadas através da mídia (televisão, jornais, revistas, periódicos, filmes, etc.). Alguns profissionais de propaganda aprendem a manejar a chamada Psicologia do Consumidor.

Parte destes truques é bombardear a mente das pessoas com estímulos visuais e auditivos, estrategicamente dispostos, e repetitivamente apresentados aos consumidores com insinuações, pouco perceptíveis pela maioria, de que aquilo é que é realmente belo ou realmente bom, portanto compre !

Vejamos um exemplo interessante: Um pesquisador russo chamado Ivan Pavlov (1849-1936), em uma famosa experiência de condicionamento do comportamento, descobriu que cães que eram alimentados com rações de carne em pó salivavam além do normal. Pavlov, então, passou a tocar um sino todas as vezes que os cães iam se alimentar. Posteriormente, ao ouvirem o sino, os cães já começavam a salivar antes mesmo de serem alimentados. E pouco tempo depois, mesmo que não fossem alimentados, mas tocando-se o sino, os cães salivavam do mesmo jeito.

 

Entendendo a Experiência de Pavlov

Na experiência de Pavlov, a ração de carne funcionava como o estímulo não condicionado, ou seja, um estímulo normal. E a salivação era a resposta fisiológica ao estímulo.
Após a repetitiva exposição dos cães à associação sino-ração de carne, o som do sino tocando passou a ser um estímulo condicionado e a salivação uma resposta automática e condicionada ao som do sino.

O Truque do Condicionamento Mental na Prática da Propaganda

1- Uma mulher atraente é mostrada e causa resposta emocional nos homens (resposta não condicionada).
2- Uma mulher atraente + um belo carro são mostrados repetidas vezes e causam estímulos (estímulos não condicionados).
3- Um belo carro é mostrado e causa um estímulo condicionado.

 

Os Resultados Disto

Para os interessados em que você consuma é uma estratégia eficaz, pois conseguem condicionar a mente de muitas pessoas a achar estimulante aquilo o que eles desejam vender. E isto têm levado muita gente a sofrer até mesmo de angústias e ansiedades porque não conseguem atingir, ou se parecer, com os “modelos de referência” dos truques psicológicos das propagandas.

A situação seria muito diferente se aquilo o que querem vender fosse simplesmente apresentado ao público sem truque psicológico algum. A mente, então, estaria livre para poder realizar a sua opção de um modo bem mais autêntico. Mas não é isto o que acontece no dia a dia, infelizmente.

 

 

Truques Persistentes com as Mulheres

Certa vez estive observando fotos de capas de revistas femininas de moda com mulheres muito bonitas e bem vestidas. Todavia, algo me chamou a atenção: todas pareciam excessivamente maquiadas e parecia haver algo de desproporcional naquelas fotos, algo que não percebi logo de imediato. Posteriormente, pesquisei e me tornei ciente de que algumas daquelas moças eram ainda adolescentes ou adultas jovens (menos do que 24 anos de idade), o que explica a beleza jovial. Mas então, por que e para que aquele excesso de maquiagem? Era para que parecessem mais velhas, ou seja, eram revistas lidas por mulheres, em sua maioria adultas e de meia idade, e aquelas moças estavam vestidas e maquiadas como se pertencessem à idade das leitoras mais velhas. O propósito disto era criar na mente das leitoras a falsa idéia de que poderiam, aos 35 ou aos 40 anos, ter uma aparência igual ou semelhante à daqueles modelos ainda muito jovens. Isto é um truque bastante sutil de condicionamento mental.

Trata-se de um truque psicológico, pois ninguém que tenha 35 ou 40 anos jamais poderá ter uma aparência de quem tem 18 anos. Um estudo em Geriatria (a especialidade médica que trata do envelhecimento) mostrou que os traços de envelhecimento já começam a aparecer por volta dos 25 anos de idade. Neste estudo, foram selecionadas moças com as idades entre 18 e 21 anos, e foram selecionadas também moças com as idades entre 22 e 25 anos. Todas as moças foram postas, juntas, diante de algumas pessoas que não sabiam a idade de nenhuma delas. Foi pedido ao grupo que apontasse as 10 moças que pareciam ser mais novas. Todos no grupo apontaram para as que tinham as idades entre 18 e 21 anos. E o que este estudo demonstra? Demonstra algo que muitos não gostam de ouvir, mas a verdade é que todos envelhecemos, e os sinais do envelhecimento podem ser visíveis bem cedo em diversas pessoas.

 

O Mito da Mulher Jovem e Magra

O mito artificialmente criado da imagem de beleza associada à uma mulher jovem e magra apresentado pela mídia tem origem nos primórdios dos desfiles de moda na França, lá pelo início do século XX. Após perceberem que o caimento das roupas confeccionadas a partir de desenhos feitos em modelos (bonecos) de arame, não se adequava a diversos biotipos, os estilistas passaram a dar preferência às mulheres magras (cuja silhueta mais se assemelhasse aos manequins de arame onde costuravam suas roupas). E isto acontece até hoje.

 

 

O “modelo ideal” da costura parisiense difundiu-se pelo mundo todo, causado efeitos por vezes bastante inadequados no modo de aceitação do próprio corpo, principalmente entre as adolescentes e entre as mulheres mais jovens (o que em si já é um dado curioso, pois isto não deveria ocorrer com as mulheres mais velhas?). Mas isto está acontecendo porque cada vez mais os especialistas em propaganda e as indústrias envolvidas com a moda têm conseguido suscitar em muitas mulheres a busca por modelos de beleza inatingíveis para a grande maioria das mulheres.

Esta insatisfação com o próprio corpo e aparência costuma, além do potencial de comprometer negativamente a auto-estima, levar muitas mulheres a gastar cada vez mais dinheiro com cosméticos, com tratamentos para emagrecer, com cirurgias estéticas, roupas sempre sendo abandonadas e trocadas por roupas novas, enfim, tudo isto acontecendo devido à pressão psicológica exercida nas mulheres de hoje. Em diversos casos, estas mulheres são influenciadas pela mídia para atingir algo que só existe na mente, ou seja, uma imagem artificial de beleza nas quais buscam se projetar.

 

 

Algumas Estatísticas

Uma pesquisa promovida por uma revista inglesa verificou o seguinte:

- 79% de 2000 mulheres entrevistadas acreditavam que sua vida social melhoraria se elas fossem mais magras.
- 83% pensavam que as celebridades que estivessem acima do peso viviam vidas infelizes.
- 70% acreditavam que pessoas acima do peso eram geralmente vistas como sendo pessoas menos inteligentes e menos atraentes.
- 88% das meninas sentiam a necessidade de parecer "perfeitas".
- 60% disseram que a sua aparência era a sua maior preocupação na vida.

Estatísticas também fornecidas pela revista Natural Health (Saúde Natural) constataram o seguinte:

- 44% das mulheres que estavam com o peso normal ou que estavam abaixo do peso pensavam que estavam com excesso de peso.

Ainda outra pesquisa, conduzida pelo canal Better Health Channel (Canal Saúde Melhor), constatou o seguinte:

- Homens e mulheres com o peso normal- 45% para as mulheres e 23% para os homens- achavam que estavam com excesso de peso.

- Mulheres abaixo do peso- pelo menos 20% das mulheres que estão abaixo do peso pensavam que estão com excesso de peso e estavam fazendo dieta para perder peso.

Também segundo uma pesquisa feita pela rede de televisão norte-americana NBC:

- 60% das mulheres já fizeram dieta ou estavam em dieta.

- 44% das mulheres se recusariam a se deixar fotografar em roupas de banho.

- 37% das mulheres não jogam os jogos de praia se estiverem usando roupas de banho.

- Somente na Inglaterra há mais de um milhão de mulheres sofrendo de Anorexia.

Um Cinto que só existia na Mente

Certa vez um conhecido meu saiu a fim de comprar um cinto. Andou pela cidade toda, visitou várias lojas, experimentou vários cintos, mas por fim, nenhum dos cintos lhe serviu. Acabou não comprando cinto nenhum. Alguns dias depois, meditando no que havia acontecido, ele me disse que não havia encontrado o cinto que queria pois aquele cinto só existia em um único lugar, na imaginação dele. E é este o efeito deletério que a moldagem artificial da beleza tem causado em tantas pessoas. Tristemente.

Em suma, esses enormes lucros que obtêm a indústria da moda são obtidos em parte pela criação de um profundo senso de insatisfação entre milhões de mulheres com os seus próprios corpos, e estes lucros aumentam mais na medida em que também aumenta a distância entre o “corpo ideal” e a realidade.

Referências:

- Allie Kovar, Effects of the Media on Body Image. Vanderbilt University.
- Cusumano, Dale, and J. Kevin Thompson. "Body Image and Body Ideals in Magazines: Exposure, Awareness, and Internalization".
- Grabe, Shelly, Janet Hyde, and L. Monique Ward. "The Role of the Media in Body Image Concerns Among Women: A Meta-Analysis of Experimental and Correlational Studies".
- Justin Fenner. "Should The Use Of Skinny Models Be Illegal?". Styleite.
- Nutrition & Eating Concerns, Body Image. Brown University.
 

 

Dr Eduardo Adnet
Médico Psiquiatra e Nutrólogo
Especialista Titulado AMB/ABP/ABRAN